Mordidas: agressividade ou carinho?

Quantas vezes você apertou seu filho, bem apertado, em seus braços? E quantas vezes beliscou-o carinhosamente nas bochechas, ou deu mordidinhas amorosas como manifestação de afeto? Crianças que recebem este tipo de carinho, e gostam, querem manifestar seu afeto por outra criança, só que erram na medida, porque ainda não têm o controle fino dos seus movimentos. Com isso, acabam machucando as outras crianças, sem querer. Por isso mesmo não entendem o choro, a reação negativa das outras crianças, a zanga, o castigo dos pais. Ela gosta de ser apertada e mordida, por que a outra criança não gostou? Pior! Por que está sendo castigada?

Como impedir a criança de morder e apertar sem magoá-la? E como dar a ela a experiência sem permitir que ela use outras crianças para suas experiências?

Em primeiro lugar, sendo paciente. Nada de broncas e gritos, especialmente porque os adultos reagem para platéia, porque ficam envergonhados, preocupados com o que outras pessoas vão dizer a respeito da sua forma de educar.

Depois, dando atenção e carinho, insistindo nos limites: não pode bater, não pode morder, não pode apertar. E fazendo a criança perceber a diferença entre uma mordida leve e uma menos leve, sem machucá-la, evidentemente. É só aumentar um pouco a pressão dos nossos dentes na carne dela, para que ela sinta que mordida pode machucar.

O certo é que a fase passa, com mais rapidez e menos dor, se respeitarmos a criança e ela perceber que nosso afeto não foi abalado.

No entanto há ocasiões em que a criança pequena bate e morde por outro motivo: está querendo chamar a atenção dos adultos, especialmente dos pais, por carência, falta de carinho e de apoio, ausência repetida. Nesse caso ela está agredindo porque se sente agredida, e a solução é dar o que ela mais precisa: atenção, apoio, afeto.

Os especialistas aconselham os pais a não valorizarem demais essas agressões. Eles afirmam que, até os quatro anos de idade, elas são normais. Nessa fase, as crianças ainda não entendem a existência do outro, e toda forma de explorar o mundo passa pela boca, é a chamada fase oral. O termo, criado pelo pai da psicanálise Sigmundo Freud, explica o estágio mais primitivo de desenvolvimento, quando as necessidades, percepções e modos de expressão da criança estão originalmente concentrados na boca, lábios, língua e outros órgãos relacionados com a zona oral.

Conforme as crianças crescem, elas aprendem a controlar suas emoções e a se expressar através da fala, deixando a mordida de lado.

Mas, algumas crianças podem persistir mordendo, seja para confirmar suas descobertas ou para “testar” o meio ambiente (disputa de poder, questionamentos de autoridade, etc). Ou ainda, pode ser uma tentativa de defesa: ela facilmente descobre que morder é uma atitude drástica. Raramente a mordida é um ato de agressividade, e muito menos de violência.

Com o passar do tempo de trabalho em grupo, o educador tem a possibilidade de planejar suas ações e estratégias no sentido de fazer com que as crianças possam refletir, a sua maneira e coletivamente, esta questão. Cabe às famílias compreender este momento do grupo.

É claro que, um pouco mais tarde, a mordida ganha nova feição, passando a ser um modo de chamar a atenção mais rapidamente ou a resposta a um desejo contrariado (antes o choro era o recurso mais utilizado para isso). Normalmente essa criança ainda não fala com tanta fluência, articula as palavras com alguma lentidão e sabe que, com essa abordagem mais “enfática”, resolverá mil vezes mais rapidamente a disputa pelo brinquedo.

Com a estruturação da linguagem e do pensamento, com a construção da razão, a criança encontra estratégias mais refinadas para solucionar conflitos.

Na ocorrência de uma mordida, talvez o melhor seja tratar o fato com tranqüilidade. É importante esclarecer, para a criança, a dor que se sente. Importante também é ajudá-la a encontrar outras formas de se comunicar. Mostrar possibilidades de se expressar, através da fala e dos gestos, suas emoções.

É preciso compreender que esta é uma fase do desenvolvimento da criança. Praticamente todas as crianças, entre um e três anos, em algum momento, usaram ou usarão tal conduta. Esse recurso praticamente desaparece quando a linguagem estiver mais desenvolvida.

 

Michelle Cristine Coradin Nicchio
Pedagoga e Psicopedagoga