Alfabetização moral

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O que a educação tem a ver com a crise ética do país? Para muitos pedagogos, tudo. Não desanime: as contribuições de longo prazo para alterar o quadro e frear a nociva cultura do individualismo estão ao alcance de todos.

O ano de 2005 foi marcado pela maior crise ética da história recente do país. Nenhum assunto estampou mais as capas de revistas e jornais do que os diversos casos de falcatruas e corrupção. Do “mensalão” à manipulação de resultados no futebol, os escândalos nas esferas pública e privada deixaram o Brasil com a sensação de que os valores morais e a boa conduta simplesmente deixaram de existir. Todo educador sabe que a discussão em torno do tema chegou também à escola. Como tratá-la?

O psicólogo Yves de La Taille, especialista em psicologia moral e chefe do Laboratório de Estudos do Desenvolvimento e da Aprendizagem do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), afirma que há dois fatores principais responsáveis pelo cenário: a falha na educação escolar e familiar e, sobretudo, o individualismo.

Considerado décadas atrás uma conquista moral e ética por significar a valorização do outro como ser humano, o individualismo adquiriu hoje sentido contrário. Além de ter se tornado sinônimo de egoísmo, a supervalorização do “eu” desencadeia a ausência de princípios como respeito, solidariedade, fidelidade, tolerância, honestidade e honra.

A educação e individualismo costumam andar de mãos dadas. De acordo com La Taille, é cada vez mais freqüente encontrar professores que fingem dar aula e alunos que fingem aprender. Os professores não se preocupam se os alunos estão conseguindo assimilar o conteúdo. E os alunos não se importam se seus professores viram a madrugada preparando uma aula.

O menosprezo e falta de respeito com o outro tem trazido sérias conseqüências para o ensino brasileiro. Em maio de 2005, a professora de história Inês (nome fictício) foi agredida física e verbalmente por dois alunos em sala de aula na Escola Estadual Flávio Ferreira da Luz, de Curitiba (PR), ao tentar controlar a classe após o intervalo.

Um dos alunos brincava de pega-pega entre as carteiras e, ao ser chamado pela professora, gritou que não tinha a obrigação de obedecê-la. Logo, não iria se sentar. Ao ser advertido, o menino deu a volta na sala e, furioso, chutou Inês. Perplexa, ela tentou fechar a porta para iniciar a aula. Em vão. No mesmo instante, outro aluno pediu para tomar água. Como haviam voltado do recreio minutos antes, Inês não o deixou sair.

“Ele me xingou de tudo o que é nome que se possa imaginar. Xingou minha mãe, minhas filhas e, não contente, me ameaçou na frente das outras crianças. Ele dizia com ódio nos olhos que as contas seriam acertadas lá fora e eu não perderia por esperar”, relata Inês. Nervosa, ela recolheu seu material e dirigiu-se à diretoria em busca de ajuda. O apoio foi negado e a professora, criticada por abandonar a classe. Com a orientação da patrulha escolar, ela levou os dois meninos ao Conselho Tutelar. Outra decepção. Nenhum documento oficial foi registrado e, quase dois anos depois, providência alguma foi tomada.

A professora tentou conversar com os pais de ambos. A mãe de um dos alunos disse, apontando o dedo no rosto de Inês, que ela deveria, sim, ter deixado seu filho sair quando desejou. “Quando você conhece a família, entende por que a criança é daquele jeito”, comenta. Os alunos tinham 11 e 13 anos, e estavam na 5ª série. Depois do episódio, Inês nunca mais foi àquela escola. Entrou em depressão e, mesmo transferida para outras duas escolas, não conseguiu dar aulas. Quando pisou em uma sala, entrou em pânico e teve crises de choro ao ver a movimentação da classe.

Atualmente, ela está em tratamento médico. Ao ter conhecimento do caso, a Secretaria de Educação do Paraná lhe concedeu licença de seis meses e lhe ofereceu a possibilidade de trabalhar em bibliotecas ou almoxarifados de escolas. Ser professora, no entanto, sempre foi seu sonho. “Eu poderia ter escolhido qualquer outra profissão. Mas optei pela carreira de educadora por amor. Hoje em dia me arrependo muito, por essas situações. Tenho nove anos de magistério e cada ano que passa tudo piora”, lamenta.

Situações de desrespeito não acontecem, apenas, em escolas públicas. A Escola Dinâmica, de Florianópolis (SC), teve um boneco gigante de Einstein destruído por um aluno do 1º ano do ensino médio.

Feito de papel marche por alunos do 2º ano para ser o mascote de 2005, demorou um bimestre para ser produzido. A coordenadora da escola, Joana Sabongi dos Reis Santos, conta que o aluno entrou escondido no almoxarifado e socou o rosto do boneco. Ao ser surpreendido por ela e questionado sobre o motivo que o levou àquela atitude, o adolescente disse não saber. “Senti vontade”, afirmou.

O estudante, contudo, tinha consciência do erro. Quando a coordenadora o sancionou com a tarefa de refazer a cabeça do mascote sozinho e em duas semanas, ele aceitou sem reclamar. Os pais foram chamados à escola. Ao serem informados sobre o ocorrido, apoiaram e parabenizaram o corpo docente pela condução do problema. “Eu poderia ter dado uma suspensão a esse aluno. No entanto, se ele ficasse em casa, ia dormir, brincar, dar risada. Ao ter de refazer o boneco, ele aprende que, se estragou, tem de arrumar”, argumenta Joana.

O caso foi debatido por todas as turmas da escola. Ao entenderem que o aluno do 1º ano errou, mas estava tentando consertar o erro, colegas de classe e de outras séries se ofereceram para ajudá-lo com o boneco. “A história teve sucesso devido ao apoio dos pais. Se a escola toma uma atitude e a família dá razão ao filho, o trabalho do educador acaba ali. Tem de ser um pingue-pongue. A escola joga de cá, os pais de lá e vamos nos ajudando. É assim que se forma um cidadão”, acredita Joana.

Pueri Domus, de São Paulo (SP), também contou com o apoio dos pais para reeducar um aluno desobediente e encrenqueiro. O menino entrou na escola na metade do ano letivo de 2003, com oito anos de idade. Segundo a orientadora pedagógica, Silvana Rossi Julio, a criança não tinha compromisso com o trabalho, respeito com o ambiente coletivo, respondia a todos, batia nos colegas a troco de nada e fazia uma revolução quando não era o primeiro a ser atendido.

“Ele queria exclusividade o tempo todo, porque era acostumado a ser tratado assim em casa”, relembra Silvana. “Então, tivemos de desenvolver um trabalho com o menino e com a sua família, para que, com o auxílio dos pais, ele entendesse a escola como instituição coletiva, onde os direitos e os deveres são iguais a todos. Trabalhamos, ainda, a noção de tolerância, respeito ao próximo e valores de cidadania.”

Aos poucos, a família compreendeu a proposta da escola e a necessidade de mudar algumas atitudes para ajudar o filho a desenvolver postura mais coletiva e social. Silvana afirma que, dois anos depois, o menino é aluno exemplar: inteligente e participativo, gosta de receber os novos alunos da escola. “Ele ajuda quem chega. Mostrar a escola, explica como funcionam as regras e onde o aluno novo pode pedir ajuda”, orgulha-se.

Na opinião do psiquiatra e escritor Içami Tiba, os professores são as pessoas que mais sofrem com a falta de respeito de alunos e adultos. A culpa, segundo ele, não é apenas da famílias, que têm dificuldades em impor limites aos filhos. Mas também das escolas, por não repreenderem seus alunos em casos de atitudes amorais e antiéticas. “Educadores não podem engolir sapos porque, na hora em que os engolem, educam seus filhos e alunos a criarem sapos para os outros engolirem lá fora”, alerta.

O desrespeito está nas pequenas atitudes do dia-a-dia. O uso do celular na escola, por exemplo. Para muitos pais, é um direito do filho carregar um telefone móvel e usá-lo no pátio ou fora da sala de aula. Mas, para La Taille, esse direito não é absoluto. O recreio faz parte do processo pedagógico e é importante que os alunos o utilizem para trocar experiências pessoais. Da mesma forma, cabe à escola proibi-los de ligar os aparelhos durante o horário de aula e mostrá-los que, naquele período, o convívio é com as pessoas que estão dentro do colégio. Não com as de fora.

“O adolescente que passa o intervalo pendurado no celular age como se o colega ao lado não existisse. Parece uma preocupação boba. Mas o festival de acontecimentos relacionados à má conduta de políticos e empresários é apenas o reflexo de pequenos atos desconsiderados durante a formação do indivíduo”, analisa. Pior do que a falta de respeito com o outro, segundo ele, é a falta de respeito consigo mesmo. Professores se queixam de alunos mal-criados e desinteressados, e, no entanto, muitas vezes não percebem que as crianças apenas os espelham.

Segundo o filósofo Mario Sergio Cortella, professor de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o bom exemplo é o melhor caminho para educar crianças e adolescentes. Se o modelo transmitido pelo professor é o desânimo, a baixa-estima e a presença obrigatória, há grandes chances de seus alunos se portarem da mesma maneira.

Crianças não respeitam quem não se respeita, lembra Cortella. Um professor que mostra gostar do que faz, se sente orgulhoso pelo que sabe e não permite ser humilhado costuma ser uma grande lição de moral e de ética. “O bom professor demonstra amor pelo que faz e briga por isso. Não é só uma espécie de piloto do livro didático”, enfatiza.

Os educadores que detêm a atenção e o respeito dos alunos são aqueles que não se deixam manipular. La Taille explica que, em um país onde os jovens vêem manipulação em todos os setores e a supervalorização desse ato, mostrar o auto-respeito como algo essencial é um belo exemplo. “A vida, hoje, funciona assim: cavam um pênalti e ‘Ah! Que malandro!’ O Maradona fez um gol com a mão e ‘Ah! Que lindo!’ Vendem a manipulação como algo que dá certo, que é eficaz. Os jovens precisam de pessoas que não se importam com a ‘eficácia’, mas com a ‘honra’”, ressalta.

E, para que as novas gerações carreguem a ‘honra’, é preciso que os adultos estimulem valores como honestidade, integridade e dignidade nas crianças. Apesar de boa parte dos pais e educadores se preocuparem em formar cidadãos, atos merecedores de repreensão costumam ser relevados por desatenção ou desconhecimento. “Isso é péssimo, pois, embora aparentem ser inofensivos, alguns hábitos podem causar bons estragos se não corrigidos a tempo”, ressalta a educadora Beatrice Baxter, mestre em filosofia e especialista em epistemologia genética, teoria criada por Jean Piaget que estuda o processo cognitivo humano.

Um bom exemplo é o desvio de verba em menor proporção. O filho recebe dinheiro dos pais para tomar lanche na escola e o utiliza para comprar figurinha. A partir do momento em que o capital sai de casa com uma finalidade e é usado para outra sem o consentimento dos pais, a criança pratica uma ação antiética. O filho pensa em seu próprio benefício e pouco lhe interessa o quanto seus pais trabalham para receber aquele dinheiro.

Em geral, crianças não cometem atos dessa natureza por maldade. Mas, quando não são advertidas por um adulto, se sentem seguras para continuar desviando o dinheiro de seus pais. Algumas delas param de fazê-lo com o passar do tempo. Outras passam a desviar volumes maiores. “Existem casos em que a criança não devia um centavo a mais. Entretanto, os maus hábitos de conduta acabam se transferindo para outros setores de sua vida”, diz Beatrice.

A escola também deve rever sua atuação e contabilizar erros e acertos. Assim como os pais, professores ignoram fatos corriqueiros e, passados alguns anos, descobrem que uma atitude mais firme poderia ter evitado marcas negativas na personalidade de alguém. Como exemplo, Beatrice cita brigas de crianças cujas diferenças são resolvidas por adultos. Para acabar com a confusão, professores interferem, deixam alunos de castigo ou os encaminham para a coordenação, aonde os pais são chamados. Para o desenvolvimento moral dos alunos, não é nada interessante que uma terceira pessoa solucione suas desavenças. As crianças não aprendem a se defender, a respeitar o outro e nem a si mesmas.

O papel do professor é incentivar um entendimento igualitário, independentemente de ter sido um bate-boca ou agressão física. O ideal é que tudo seja apaziguado com diálogo. Caso isso não seja possível, Beatrice aconselha o professor permitir, ao aluno que apanhou, dar a mesma quantidade de tapas no aluno que bateu. Nem um a mais, nem um a menos. O acordo deve ser supervisionado por um adulto.

“Dizer para o menino ‘não pode agredir o amiguinho’ não tem efeito nenhum. Aquele que bateu deve aprender que também pode apanhar, e o que apanhou tem de se defender. Quando crescerem mais e tomar um tapa, vão revidar e questionar: resolve batendo?”, garante Beatrice. Seguindo esse raciocínio, ela defende que o desenvolvimento da consciência moral deveria ocorrer ao final de todas as aulas, não somente em momentos ou eventos isolados. Ao invés de criar cadeiras como Moral, Ética e Cidadania, as escolas deveriam adquirir o hábito de transferir o conteúdo ministrado em classe para o cotidiano e discuti-lo amplamente com seus alunos.

Segundo ela, os professores precisam saber como as crianças pensam para saber como atuar e intervir diante de situações desconfortáveis. “A escola não pode ter receio de colocar no seu currículo a discussão da criança sobre conflitos éticos e morais do mundo ou mesmo do dia-a-dia. Se o senso crítico for trabalhado, a geração seguinte será mais afetiva, amorosa, cooperativa e ética”, aposta.

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 Vanessa Nakasato

REVISTA EDUCAÇÃO – EDIÇÃO 106